Se o conhaque, hoje, é uma bebida barata, não me importa: é a sua falta que suga todo o meu charme pelo ralo desta rala existência. Quem ousou roubar a minha melhor solidão? Antes eu até bailava, à noite, devotamente, com amor, mas sem paixão ou espasmos. Era apenas o meu copo meio cheio, meio vazio. E essa tal perspectiva vira-lata? Foi-se o tempo do meu reinado, quando a sensualidade era apenas mais um capricho da realeza. Ah, last night!, quanta saudade de um tempo outrora, em que duelava contra sentimentos que levava no peito. Hoje, jogado às cobras, só me restou o meu humor blasé, o tédio, a apatia aparente e impaciente. Que rei sou eu?

Mas quem é que me fo[g]e? Quem vai aparecer para cuidar de mim?, para me salvar dessa selva de negligentes no tempo? Não que eu não conheça ninguém, mas sempre paira aquela dúvida: eu não sei se aquela figura tênue sente o mesmo que eu sinto, cumpade. Como um romântico incorrigível, falo com recorrência por aqui dessas aleatoriedades. Mas um romântico diferente de todos os outros que existem por aí, perdidos à solta. É num momento desses que eu invoco Neruda. “Se sou amado, quanto mais amado, mais correspondo ao amor. Se sou esquecido, devo esquecer também” – pois no amor, tem que ter reflexo. Talvez seja a falta daquele conhaque drummondiano que me deixava comovido como o diabo... talvez a lua, eu acho que nem devia te dizer isso.