Cleo, Cleonice
Menina de praia
Menina vivida
Menina rendeira
Cle-o-ni-ce
temperamento forte
e corpo torto
Caduca
Mas, acima de tudo, desequilibrada
Maníaca
Delirante
Escapou-se o raciocínio, dizia-se
─ Lá vem Cleonice! ─ grita o feirante camelô
─ Cuidado!
─ Ela quebra tudo, derruba barraca
─ Fora que é tetêta! Doidinha!
─ Lá vem Cleo dos Santos ─ grita outro
─ Quebra pote, com um pote na cabeça
Revolta
desequilíbrio
e um punhado de raiva
O que ela mais guarda em si?
indaga Raimundo
Aqui não há uma rima
De frente para uma barraca,
ela bate em dois homens ─ e sai.
Sai cravando os dentes.
Grita por Maria, mãe de Jesus
Exu e Buda
Morde um acarajé com ódio
e com tanta força que parece não existir nada entre as mandíbulas.
É puro vão de raiva.
─ Mais vatapá! ─ grita, chutando a barraca da baiana
─ Anda mula velha ─ disse Cleonice.
Seu Ludmilo diz baixinho para a baiana:
─ Cuidado!, ela é desequilibrada,
─ tetêta, consoante.
Já chutou vários potes d’água na casa de dona Mirandinha, disse o homem aterrado com o medo que tomava o seu semblante.
─ Ô!, seu velho bosta, o que você está falando de mim?
─ Cala essa boca, jumento pardo.
Seu Ludmilo sai de fininho,
olhando de lado e desconfiado.
Cleonice saiu de camisola,
desfilando pela orla com a cara amarrada.
Disse que nunca mais voltaria.
E nunca mais voltou.
