Há filosofia escondida em uma imagem aparentemente vulgar.

“Se eu enfio o dedo em qualquer buraco, logo tenho razão. O dedo é meu ─ e o prazer também. Mas e o buraco?”¹.

A metáfora pode ser compreendida como uma paródia moderna do cogito cartesiano ─ “eu opino, logo existo”. Se, em Descartes, o pensamento constitui a certeza da existência do sujeito, para Embroda a experiência subjetiva é elevada, ironicamente, à condição de fundamento da própria legitimidade. A pergunta “mas e o buraco?” introduz, contudo, a alteridade e evidencia os limites de uma concepção autocentrada da experiência.

A frase parece, à primeira vista, apenas uma provocação sexual. Entretanto, levada às últimas consequências, ela pode ser lida como uma alegoria sobre uma das questões centrais da filosofia ocidental: o que autoriza um sujeito a transformar sua própria experiência em medida da realidade? O dedo é a experiência individual; o prazer, sua confirmação subjetiva; o buraco, por sua vez, é aquilo que resiste à apropriação completa pelo sujeito. Entre os três instala-se uma tensão: eu, aquilo que sinto e aquilo sobre o qual exerço minha experiência.

A genealogia dessa questão pode começar em René Descartes, no célebre cogito. Ao procurar uma certeza que sobrevivesse à dúvida, Descartes encontrou no próprio ato de pensar a evidência da existência do sujeito: se penso, existo. O cogito institui, assim, uma espécie de ponto de partida interior: a consciência torna-se o lugar privilegiado da certeza. A metáfora do dedo poderia deformar ironicamente essa fórmula e produzir um novo cogito na era moderna: “eu opino, logo existo”. O problema começa quando essa constatação existencial sofre uma mutação silenciosa e passa a significar: “eu experimento, portanto tenho razão”. Ter uma experiência é indiscutivelmente real; transformá-la, porém, em prova suficiente sobre a realidade é outra operação.

É nesse intervalo entre existência e verdade que aparece o subjetivismo. Minha opinião pode existir sem que, por isso, seja verossímil; meu sentimento pode ser legítimo sem que minha interpretação seja necessariamente coerente; meu prazer pode ser efetivamente experimentado sem que ele esgote o significado da situação. A diferença parece banal, mas talvez seja uma das distinções mais importantes para compreender a vida contemporânea: confundimos cada vez mais o direito de possuir uma experiência com o direito de impor a essa experiência o estatuto de verdade. O “eu sinto” desliza para o “é assim”; o “eu penso” transforma-se em “tenho razão”.

O existencialismo de Jean-Paul Sartre desloca a discussão para outro terreno. Se a existência precede a essência, o sujeito não recebe previamente uma identidade ou uma finalidade que determine absolutamente aquilo que deve ser; ele se constitui por suas escolhas, ações e projetos. Há, portanto, uma dimensão irredutivelmente pessoal na existência. O dedo, nesse sentido, é uma imagem da liberdade: ele pertence ao sujeito, move-se pela sua decisão e produz uma experiência que lhe é própria. Mas a liberdade sartreana não equivale à soberania absoluta. O indivíduo está sempre situado em circunstâncias, diante de outros sujeitos e em um mundo que não criou inteiramente.

É precisamente nesse ponto que a pergunta “mas e o buraco?” se torna filosoficamente decisiva. Se o dedo representa o sujeito e o prazer representa sua experiência, o buraco representa aquilo que o sujeito não pode simplesmente eliminar de sua equação. Ele é o mundo, a circunstância, o outro, a resistência da realidade. A pergunta desloca o centro de gravidade da filosofia: já não basta perguntar “o que sinto?”, mas “o que existe além daquilo que sinto?”. O sujeito deixa de ser uma ilha epistemológica. Sua experiência passa a ser compreendida como uma relação.

É possível avançar, então, para a fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty, para quem a relação entre sujeito e mundo não se reduz à oposição entre uma consciência que observa e um objeto observado. Somos corpos situados no mundo. Não possuímos simplesmente um corpo como quem possui uma ferramenta, pois somos corporalmente lançados em uma realidade que nos envolve. O dedo, portanto, não é apenas uma propriedade do sujeito; ele é também uma forma de estar no mundo. O buraco não é simplesmente um objeto passivo diante de uma consciência soberana. Ambos participam de uma situação vivida.

Essa perspectiva permite compreender o “buraco” como uma metáfora da alteridade. Aquilo que encontro no mundo não é necessariamente uma extensão de mim. Há algo que permanece exterior, resistente e irredutível à minha vontade. É possível aproximar essa questão também de Emmanuel Levinas, para quem o outro não deve ser reduzido a objeto disponível para o conhecimento ou para a apropriação do mesmo. O outro interrompe a soberania do eu. Ele me obriga a reconhecer que existe algo — ou alguém — que não começa nem termina em minha própria consciência.

Se Descartes pergunta, em essência, “como posso ter certeza de que existo?”, e Sartre pergunta “o que faço de minha liberdade?”, a metáfora do buraco acrescenta uma terceira questão: “o que acontece com aquilo que não sou eu?”. Talvez seja essa a pergunta que falta quando a experiência individual se transforma em critério absoluto. O sujeito contemporâneo pode ter aprendido a reconhecer sua própria subjetividade, mas isso não significa que tenha aprendido a reconhecer a subjetividade alheia.

Nesse sentido, Michel Foucault dialoga com o que propõe Embroda: uma espécie de desconfiança final em relação ao sujeito soberano. Foucault mostrou como aquilo que consideramos “verdade” não surge simplesmente de uma consciência individual isolada, mas está relacionado a discursos, instituições, relações de poder e regimes históricos de produção do saber. Não basta, portanto, perguntar quem fala; é preciso perguntar de onde fala, em que condições fala e quais relações de poder tornam sua fala legítima. O “eu tenho uma opinião” deixa de ser o ponto final da reflexão e torna-se apenas o começo de uma investigação.

A metáfora pode, assim, ser entendida como uma crítica àquilo que poderíamos chamar de narcisismo epistemológico: a tendência de tomar a própria experiência como centro e medida do mundo. O sujeito diz: “o dedo é meu”. E é verdade. Diz: “o prazer é meu”. Também é verdade. Mas dessas duas verdades não decorre uma terceira: “portanto, tenho razão sobre tudo aquilo que envolve meu dedo e meu prazer”. O salto lógico está justamente na propriedade de que a experiência não garante a verdade da interpretação.

O “buraco”, finalmente, pode ser compreendido como aquilo que impede a filosofia do eu de transformar-se em uma filosofia do “eu, logo basta”. Ele introduz o contexto, o corpo, o mundo, o outro, a consequência e a resistência. É aquilo que nos lembra que toda experiência é situada. O sujeito não desaparece, mas permanece fundamental. Ela deixa de ocupar sozinho o palco. Entre o dedo e o buraco há uma relação — e talvez seja nessa relação, e não na soberania de um dos polos, que a existência efetivamente aconteça.

A metáfora começa, portanto, com uma certeza quase infantil — “o dedo é meu” — e termina com uma pergunta filosófica muito mais incômoda: “mas e o buraco?”. Entre uma coisa e outra está toda a história do sujeito moderno: do cogito de Descartes à liberdade de Sartre, da fenomenologia de Merleau-Ponty à ética da alteridade de Levinas e à crítica dos regimes de verdade de Foucault. O dedo afirma o eu. O prazer confirma a experiência. O buraco, porém, devolve a pergunta que o eu preferiria não ouvir: e aquilo que existe fora de você?

¹ A frase integra um discurso proferido pela personagem Embroda, no interior da ficção literária, ambientada em Londres, em 1937, durante os congressos realizados com o propósito de resgatar e discutir os feitos da Liga dos Comunistas. A passagem é aqui mobilizada em sentido metafórico, como formulação acerca da relação entre apropriação, desejo e alteridade.