Corria cambaleante, trôpega e, ainda fatigada, bebia um gole e outro de uma infusão avermelhada e amarga, que lhe garantia o mínimo de força para continuar rasgando o escuro. Entornava o que trazia em seu cantil envelhecido, gasto pelo tempo e pelos embates de uma história que retornava a galopes aturdidos, e, em pensamentos avulsos, deparava-se com aquilo que a incomodava na alma.
Os passos apressados, acompanhados pela respiração ofegante, provocavam um ardor descomunal em seus pulmões, comprometidos pela fumaça dos cigarros inevitáveis tragados em noites perdidas para o mal. Embroda via-se diante da necessidade urgente de alertar o mundo para o que estava por vir.
Suava frio, temerosa, mas sabia como agir. A mulher do fim do mundo persistia com a esperança quase perdida de falar à humanidade sobre o perigo que a nação corria ao mergulhar profundamente nas entranhas da morte. Aquele era um buraco escuro, sem vida. Ela cruzava, por vezes, o caminho do Mal, como alguém que se sentia na obrigação de vigiar o mundo, observando atentamente como a História se comportava ao longo dos séculos e considerando as ameaças inerentes à própria raça humana.
Via no escuro olhos vermelhos flamejantes, e o cheiro do sangue invadia suas narinas como marcas do que havia vivido muitos anos antes. Respirava com dificuldade e tentava se manter lúcida no coração do mundo. Via as luzes apagadas em Paris e, num piscar de olhos, percebeu que o Cristo (trôpego) trajava luto.
Ao chegar a um antigo sobrado, que servia de esconderijo para os associados, a mulher do fim do mundo percebeu que o telefone tocava sem parar, como presságio de um golpe de Estado. Do outro lado da rua, soldados marchavam em plena madrugada e só podiam ser reconhecidos pela luz vacilante dos postes, que fazia reluzir seus uniformes inconfundíveis.
Era o terror que se espalhava pela nação na calada da noite. Ao telefone, um dos associados advertia outro camarada da Itália sobre o risco dos métodos políticos criados havia cem anos naquele país e aplicados, agora, neste lado do mundo, pelo grande líder, Mito Buscoquini.
Imersa em uma profunda crise social e econômica, a nação regida pelo líder do Partido Único se tornara terreno fértil para o surgimento de uma política ultranacionalista e autoritária. Buscoquini passara a exaltar valores tradicionalistas nas Marchas pela Nação, longas caminhadas que apelavam ao apoio popular contra um inimigo imaginário, apresentado como um coletivo de representantes de movimentos ligados às minorias políticas e sociais. As marchas eram sempre acompanhadas pela ala do Exército que apoiava a militarização da política no país e defendia a concentração de poder na figura do grande líder como solução para as crises extenuantes enfrentadas pela nação.
Naquela mesma noite, um dos camaradas alertara Embroda para um possível plano de golpe que avançava entre militares infiltrados na política. Planejavam tomar o Congresso e o Judiciário, submetendo as duas Casas Legislativas ao mesmo tempo em que invadiriam a mais alta Corte de Justiça do país. Com a deposição dos membros dos grupos de oposição, Buscoquini se sentiria seguro para implantar o totalitarismo naquele mesmo ano. Enquanto isso, as ruas do país eram tomadas pela inquietação provocada pelo temor espalhado pelo próprio governo diante do risco de uma invasão comunista. Ataques constantes à imprensa buscavam afastar a população da realidade dos fatos e transformavam o terror em estratégia política do Partido Único. Embroda sentia que era hora de agir ou, do contrário, seria tarde demais.
Sentada em uma cadeira de balanço, Embroda pressionava as pontas dos pés contra o chão para manter o corpo em movimento. Com o olhar petrificado, apoiava as costas no móvel e fumava obstinadamente o cachimbo que trouxera consigo. A oscilação da cadeira e a fumaça serviam para transformá-la em um pêndulo filosófico, que ora se inclinava para o bem, ora para o mal. O mundo das coisas reais não era maniqueísta, pensava consigo mesma, em um devaneio introspectivo. A umidade impregnada na madeira velha do assoalho a fazia manter o pensamento firmado sobre a banalidade do mal, expressão utilizada por uma velha conhecida a quem considerava sua alma gêmea intelectual, a teórica política Hannah Arendt.
Com um suspiro profundo, Embroda arregalou os olhos e voltou àquele cômodo do sobrado. Desta vez, fixava o olhar em ponto algum, como se uma entidade estivesse incorporada àquele espaço confinado, que conservava o mobiliário e o cheiro de outros tempos de guerra. Ali, em palavras inaudíveis, o destino parecia anunciar seu ultimato em poesia morta.
A voz, grave e um tanto embargada, tinha um timbre quase irreconhecível. Então, algumas palavras ousaram sair de sua boca, em alto e bom som:
— É o fim da política.
