Posso dizer, sem medo de levar uma bofetada, que Embroda é a nossa Macunaíma sertaneja: a personagem que abdicou da moral do seu tempo depois de conhecer a filosofia nietzschiana. Mais especificamente, a teoria que aborda aquilo que o filósofo da suspeita chamou de niilismo. No fim das contas, ela nada mais é do que a síntese, sem hipocrisia, do povo destas terras.

A personagem, que não serve a nada nem a ninguém, apresenta-se como uma anti-heroína diacrônica (?), utilizando o humor, as contradições humanas e os saberes populares para promover rupturas narrativas de tempo, espaço e linguagem. Mistura o erudito e o popular, o urbano e o regional, o escrito e o oral, formulando, assim, a sua própria existência.

Editoria de Arte da WA

A relevância de textos de caráter ensaístico, que fundem filosofia e relatos de experiências vividas, obrigam-nos a refletir criticamente sobre as posições da mulher do fim do mundo, figura que se confunde com o narrador, ao mesmo tempo onisciente e personagem, e que se situa para além do bem e do mal. Embroda incita polêmicas e provoca desdobramentos em todos os campos da sociedade, sempre com muito prazer, deboche e sarcasmo.

Embora se apresente como uma figura feminina, nascida de um boato entre os morros de Jussiape, no sertão baiano, filha do barulho e do acaso, Embroda passa a maior parte da infância nos anos de 1910, até se tornar popular por salvar um pequeno povoado ao amamentar seus habitantes com o próprio leite. Mais tarde, é evocada pela população do município nos primeiros anos da década de 2000 e, desde então, tornou-se uma cronista atemporal.

Leia a primeira crônica: Não mitifico homem nenhum, dotô Freud!.