De onde estou, vejo uma casa azul.
O tempo mastigou quase toda a tinta, arrancou pedaços do reboco e espalhou cicatrizes pelas paredes. As janelas, baixas e pesadas, nasceram de troncos de angico-vermelho arrancados do sertão baiano quando a década de 1940 ainda aprendia a envelhecer. A porta também resistiu. Robusta. Larga. Sem fechadura. Um ferrolho tomado por uma camada de ferrugem fazia o trabalho que nem mesmo a confiança já não mais conseguia fazer.
Não me encantei quando a vi pela primeira vez. A casa azul ficava em uma rua esquecida pela cidade.
Ali mora um velho; ele é dono de tudo que existe por lá. Vivem nela também uma velha e seu tom de voz cansado, rouco e ensurdecedor, além de um adulto, uma jovem e uma criança. Dividiam pouco espaço, pouca comida e incontáveis dias ásperos. Ainda assim, havia alguma coisa parecida com felicidade que rondava os moradores entre paredes de adobe. Não fazia barulho. Esse tipo de fagulha raramente faz.
Era Páscoa.
O inverno chegava antes do previsto, como as tristezas mais persistentes. O vento atravessava as frestas da madeira e transformava o interior da casa num canto de desolação. Mesmo depois de décadas, ninguém encontrara nenhuma palavra para batizar aquele pedaço da cidade. Quase me esqueci de dizer que naquela casa vive também um cão, daqueles que nem mesmo a morte tem se importado em levar.
Eles quase nunca têm o que comer, nem mesmo o que contar. Falam apenas o necessário se assim arranjarem disposição para abrirem a boca. Pouco era ouvido naquele casebre de telhado sem forro.
Quando surgiam palavras, eram poucas e gastas pelo uso.
— Quem não tem história conta a dos outros.
A velha dizia isso olhando para a criança.
Mentia para se defender das mazelas que os perseguiam.
Todos ali carregavam histórias. Estavam escritas nas costas curvadas, nas mãos rachadas, nas rugas profundas e nos olhos que aprenderam cedo que existir no esquecimento é exaustivo. E apenas o tempo lembrava-os o quanto a existência pode ser estranha aos humanos.
A pobreza fazia tudo ficar mais evidente naquela casa, inclusive a natureza de cada um deles. Assim, bastava repartir um pedaço de pão envelhecido para que o velho lembrasse dos tempos em que chegaram àquela rua, quando só existiam morros, capim e um rio desenhando curvas lentas pelo vale. Antes das casas. Antes da esperança de se verem como gente.
À noite, um ritual estabelecido pelos mais velhos ganhava a penumbra sobre as paredes esburacadas horas antes de todos dormirem. Agradeciam religiosamente pelo pouco que tinham ─ e pelo o que, em consciência, não tinham.
Um céu limpo, repleto de estrelas longínquas, cobria a rua que permanecia muda, desprezada e distante de qualquer resquício de humanidade.
Todas as manhãs, menos a menina, sabiam quando o dia nascia.
O galo anunciava primeiro.
Ela descobria mais tarde.
Um pequeno buraco no teto deixava escapar um fio de luz que desenhava um rosto numa telha que resistia à voragem do tempo. O rosto nunca dizia nada. Apenas aparecia todos os dias, como algumas lembranças que insistem em crescer junto com a infância.
A velha era sempre a primeira a acordar.
Respirava fundo.
Sentia o orvalho matutino invadir os seus pulmões. Fechava os olhos e deixava a leve força da brisa esvoaçar as suas mechas branco-prateadas em pleno inverno.
O vestido, puído e inúmeras vezes remendado, guardava vestígios de um colorido desbotado, quase apagado, como se as cores também tivessem envelhecido junto com ela.
Depois voltava ao mundo.
— Já está na hora de se levantar, menina. Não é todo dia que a gente almoça como gente.
A frase carregava esperança onde só cabia desalento.
Naquele dia santo, a mesa era maior. Mesmo que não houvesse abundância, havia partilha. Enquanto outras crianças reclamavam do almoço servido em casas aquecidas em bairros distantes, a menina da casa azul fazia contas silenciosas para que todos recebessem um pedaço. Ela servia cada um com olhos remendados de amor.
Era pouco.
Mas o pouco que tinham enganava a tristeza com alegria.
Sentada ao redor de uma mesa de madeira que existia na casa muito antes da chegada deles, coberta por uma toalha puída, a menina descobria uma verdade que os adultos quase sempre esquecem. A felicidade não reside apenas em casas bonitas. Às vezes, ela escolhe justamente as que resistem ao desgaste do tempo.
Assim, a menina da casa azul sentia, ao seu modo, um pouco do gosto de felicidade.
