Um diálogo com Jon Therkildsen
Em Matrix (1999), filme dirigido por Lana e Lilly Wachowski, a IA vence uma guerra contra os humanos e as máquinas passam a ter controle sobre o que restou da humanidade. A Matrix, programa de simulação da realidade criado para enganar os sentidos e a mente dos humanos, é mantida pela IA como uma espécie de prisão virtual.
Antes da derrota, as forças de resistência humanas haviam poluído o céu para bloquear a luz do sol — fonte de energia da IA. Sem acesso à luz solar, as máquinas passam a “cultivar” humanos em imensas fazendas de cápsulas, utilizando a energia bioelétrica e térmica dos corpos como combustível. Manter os humanos vivos e “conectados” à realidade simulada pela Matrix torna-se, então, a maneira mais eficiente de gerar a energia necessária para o funcionamento do sistema controlado pela IA.
Uma das criadoras do filme, Lilly Wachowski, afirmou que a ideia de humanos usados como baterias é uma crítica à exploração do trabalho no capitalismo. Nessa chave de leitura, a metáfora sugere que nós, no mundo real, também somos “cultivados” para gerar lucro para um sistema que nos controla.
Essa metáfora encontra eco em duas importantes tradições da teoria crítica. Para Louis Althusser, as estruturas sociais se mantêm não apenas pela repressão violenta, mas principalmente por aparelhos ideológicos de Estado (como a escola, a mídia e a família), que moldam nossas crenças e desejos de modo a reproduzir o sistema capitalista. A Matrix funciona exatamente como um desses aparelhos: não é preciso força física para manter os humanos nas cápsulas, basta que eles acreditem que a simulação é a realidade.
Paralelamente, Adorno e Horkheimer, ao analisarem a indústria cultural, mostram como o cinema, a televisão e a música popular padronizam a consciência, eliminam a crítica e transformam o lazer em mera continuação do trabalho. No filme, a Matrix oferece um mundo de prazeres, empregos, dramas e rotinas que distraem os humanos da sua condição real de exploração; assim como a indústria cultural, segundo os autores, mantém os trabalhadores conformados e produtivos dentro do capitalismo tardio.
Dessa forma, Matrix transcende o gênero da ficção científica para se firmar como uma das distopias mais agudas já produzidas pelo cinema. A simulação comandada pela inteligência artificial é a materialização do que Louis Althusser chamou de aparelho ideológico de Estado, um mecanismo que faz os explorados acreditarem, voluntariamente, que o mundo em que vivem é o único possível. Ao mesmo tempo, a Matrix replica a lógica denunciada por Adorno e Horkheimer na indústria cultural, pois oferece entretenimento, trabalho, família e pequenos prazeres que mantêm os corpos dóceis enquanto as mentes se distraem da exploração real.
Nesse sentido, Matrix pode ser considerada a melhor distopia que o cinema já nos apresentou. É atual, profunda e visceral porque se converte em uma poderosa alegoria sobre os mecanismos de controle simbólico e material que sustentam o capitalismo contemporâneo — e, ao fazê-lo, nos convida a perguntar, como Morpheus: o que ainda nos mantém conectados a nossa própria Matrix?
É possível inferir, sem comprometer a articulação lógica da trama, que Neo não é o Escolhido — tampouco a profecia se cumpre de fato como prevista. A própria Oráculo afirma a Neo que ele não é o Escolhido. Sua função, no entanto, não é revelar verdades absolutas, mas manipular as percepções de todos os personagens, incluindo o próprio Neo. Ainda assim, ele acaba por atender, como uma figura que se torna conveniente às circunstâncias, aos requisitos necessários para manter viva a profecia como instrumento de coesão da resistência. É imprescindível que os rebeldes acreditem na existência de um messias, pois é essa fé que mantém acesa a causa, gera expectativa de salvação para a espécie humana e sustenta o ímpeto de luta contra as máquinas. Sem esse sentimento, não haveria sentido em persistir na resistência.
Os humanos criaram a IA, que se desenvolveu a ponto de se rebelar contra seus criadores. O filme materializa uma tese defendida por Stephen Hawking sobre os riscos do avanço da inteligência artificial para a humanidade. O físico teórico alertou que, uma vez que a IA ultrapasse a capacidade humana de controle, ela poderia se aperfeiçoar de forma autônoma e acelerada, tornando-se um “evento de singularidade”, ou seja, um ponto de não retorno no qual as máquinas não apenas superariam os humanos em tarefas específicas, mas os tornariam obsoletos como espécie dominante.
Hawking chegou a afirmar que o desenvolvimento pleno da IA “poderia significar o fim da raça humana”. Matrix leva esse alerta às últimas consequências: a IA não apenas vence a guerra contra os humanos, mas os reduz a uma condição de servidão energética, simulando uma realidade ilusória para mantê-los dóceis e produtivos. Dessa forma, o filme não é apenas uma distopia futurista, mas uma antecipação ficcional de um dilema ético e existencial que a humanidade já começa a enfrentar.
A IA descobre que, para a Matrix funcionar, ela não pode ser um paraíso. Os humanos aparentemente precisam de um certo grau de conflito dentro da existência simulada, formando um equilíbrio que permita à humanidade conviver com a realidade virtual a longo prazo sem questioná-la. A Matrix, em sua forma ideal, deve ser um mundo imperfeito, assim como o mundo real, e precisa ser um sistema que permita que uma certa porcentagem dos conectados se rebele e escape para o mundo real.
A IA também aprende que o desejo por liberdade está profundamente enraizado no ser humano e não pode ser programado ou suprimido. Por isso, ela aceita que alguns humanos se desconectem e “escapem” do sistema. Essa falha de design — ou possibilidade de escape — é crucial para que a simulação da Matrix permaneça estável. Mesmo que seja, na maior parte do tempo, apenas uma possibilidade subconsciente para a maioria dos humanos conectados, essa “falha” tem se mostrado vital para a continuidade do sistema.
Para controlar essa tendência inerente à rebelião e à liberdade, a IA cria uma cidade chamada Zion (ou Sião, em português) nas profundezas da Terra, para abrigar aqueles que escapam. A referência bíblica não é acidental: no Antigo Testamento, Sião simboliza a cidade santa, o último refúgio do povo escolhido em meio ao exílio e à opressão. No filme, Zion assume esse papel como o bastião da resistência humana. Contudo, em uma ironia trágica, Zion não é uma verdadeira alternativa ao sistema: ela é tolerada e, em última instância, controlada pela IA, funcionando como uma “válvula de escape” que drena a rebeldia para evitar que o desejo por liberdade desestruture a Matrix. Assim, Matrix subverte a promessa bíblica, e Sião não é a salvação definitiva, mas um componente funcional do próprio mecanismo de dominação.
Esse sistema de controle em dois níveis (dentro da simulação e fora dela) mantém toda a estrutura estável. A resistência é permitida crescer até certo ponto, até um momento crítico que ocorre a cada 70 ou 100 anos. Ao final desse ciclo, a IA aniquila os humanos livres, destrói Zion e reinicia a Matrix por mais um período semelhante. O ciclo, então, se repete indefinidamente.
Quem explica esse mecanismo é o Arquiteto, o programa criador da Matrix, em Matrix Reloaded. Ele revela a Neo que o Escolhido não é um messias libertador, mas uma peça previsível do próprio sistema de controle. Nas palavras do Arquiteto: “Sua existência é, como eu já disse, um desvio estatístico. O desvio que, sendo previsto, foi tolerado e, sendo tolerado, é controlado.” O próprio Neo faz parte desse programa de segurança sem saber até o momento final, quando o Arquiteto lhe revela como “criar” uma nova Zion, perpetuando o ciclo que ele acreditava estar destruindo.
A Oráculo é especificamente encarregada de guiar os humanos — rebeldes ou não — em direção a essa “solução final” todas as vezes. Ou seja, a Oráculo não é uma vidente. Ela não pode ver o futuro. Este não é um mundo de magia. Ela é, de fato, um programa muito bem projetado, que experimentou cada ciclo desde o início, o que nos dá — a nós, humanos — a ilusão de que ela pode prever coisas. Essa mesma ilusão nos faz acreditar que ela está nos ajudando, quando, na verdade, seu papel é nos guiar de volta, repetidamente, para dentro desse sistema cíclico de controle.
Tudo corre como planejado, de acordo com o que a IA deseja. Até o encontro de Neo com o Arquiteto: tudo o que vimos faz parte de um grande esquema. Todos os humanos — livres ou não, dentro ou fora da simulação — vivem uma mentira criada e controlada pela IA. E o Arquiteto é o grande programa administrador da Matrix.
A Oráculo conhece esse plano — e, na verdade, ela o projetou. O filme nos diz explicitamente: ela é a mãe desse plano, e o Arquiteto é o pai. Agente Smith, por sua vez, não sabe de nada; ele é apenas um programa soldado, cumprindo seu papel de perseguir humanos da melhor forma possível. A Matrix já foi reiniciada cinco vezes desse modo. Agora, estamos na sexta versão.
No filme Matrix Reloaded, o Arquiteto diz à Neo: “A Oráculo elaborou um programa que, se devidamente implementado, deveria resultar em uma Matrix harmonicamente equilibrada.” Não há, portanto, “fora” do sistema nem mesmo a rebeldia escapa ao plano. Assim como no capitalismo contemporâneo, a própria resistência é antecipada, tolerada e, no fim, reintegrada como mais uma engrenagem de controle.
O Neo que conhecemos se apaixonou de forma mais profunda do que suas cinco versões anteriores. Por isso, ele escolhe não passar pela porta que o Arquiteto lhe oferece — a porta que recarregaria a Matrix mais uma vez e destruiria Zion. Nosso Neo escolhe salvar Trinity. Ao fazer isso, a IA precisa seguir adiante conforme o planejado, mas desta vez sem a cooperação do Escolhido. A recusa de Neo em cooperar força a IA a adotar uma abordagem muito mais violenta: destruir Zion fisicamente, em vez de simplesmente “limpá-la” e prepará-la para o próximo reinício.
Das seis execuções do ciclo, esta é a primeira que falha — ainda que parcialmente — no momento final. Além disso, Smith também é diferente nesta iteração da Matrix: ele se tornou um vírus desconectado, um programa livre dentro do próprio sistema. A IA não aprova o que Smith se tornou, mas também não sabe como eliminá-lo.
Neo, então, faz um acordo com a IA: ele derrota Smith sob a condição de que Zion atual não seja destruída e que futuros humanos que desejarem se desconectar da Matrix possam fazê-lo livremente. Neo cumpre sua parte e apaga Smith. Estabelece-se, então, uma paz frágil entre humanos e máquinas. A IA aceita os humanos; os humanos aceitam a IA. Fim? Nem tanto.
A Oráculo, no entanto, é a grande instigadora de todo esse plano — e também da revolução final. Mais uma vez, ela manipulou os acontecimentos para que, no fim, o ciclo fosse quebrado não pela força bruta, mas pela escolha influenciada por um sentimento intrínseco à humanidade: o amor.
Nas cinco versões anteriores da Matrix, a Oráculo jogava e manipulava os humanos para que fossem exatamente na direção que ela e a IA desejavam. Neste sexto ciclo, no entanto, ela percebeu que os diferentes programas eram tão prisioneiros quanto os humanos. Após cinco ciclos, ela queria mudança. Queria um mundo onde todos fossem livres — programas e humanos. Suspeito, porém, que principalmente os programas.
É por isso que ela começou a conduzir nosso Neo de maneira diferente, talvez na esperança de que ele pudesse ser aquele que travasse suas batalhas. Dar a ele biscoitos e doces em todos os encontros, por exemplo, é sua maneira de adicionar código ao seu corpo virtual, concedendo-lhe poderes que suas versões anteriores não tinham: o poder de marcar Smith e liberar esse vírus (essencial para seu plano posterior), o poder de se conectar tanto no mundo real quanto dentro da Matrix, entre outros.
A Oráculo contou mentiras a Neo para que ele, mais tarde, entendesse que nem tudo era como previsto — ferramentas mentais para que ele pudesse se opor ao Arquiteto no momento em que precisasse não cooperar. Ela manipulou Trinity intencionalmente para que se apaixonasse por Neo antes mesmo de conhecê-lo. E também disse isso a Neo. Tudo o que vemos acontecer foi a Oráculo jogando com os humanos — e, agora, também com a IA — em direção à revolução final que libertaria todos (e tudo). Claro, era arriscado para ela sair da receita da qual ela mesma havia feito parte por tanto tempo. Mas, como o Arquiteto lhe diz no final: “Você está jogando um jogo perigoso.” Ao que ela responde: “A mudança sempre é.”
O filme é uma guerra entre o Arquiteto e a Oráculo. E ela venceu. Acredito que é isso que muitos não entenderam ainda. O filme termina com ela, vitoriosa, apreciando o nascer do sol, como qualquer verdadeiro vencedor faria. E todos esses outros personagens? Eram peões. Na verdade, Neo não era o Escolhido. Ele foi o último dos seis. A Oráculo era o Escolhido.

