Eu nunca irei te esquecer [...]. Mas talvez eu não seja lembrado. O seu rosto será a imagem que não conseguirei apagar ao longo da vida, por mais fugaz que tenha sido o lampejo em que se transformou o encontro dos nossos corpos naquela noite de céu limpo e brisa breve. Você diz: “por favor, vá embora”. E eu respondo que não consigo partir, pois preciso ficar mais um pouco para admirar seus grandes olhos claros.
Queria estar com você agora, apenas para confirmar o quanto meu ego sobreviveu ao impacto desses grandes olhos claros. Mas sinto que talvez esse não seja o melhor caminho. Talvez você seja o espelho dos meus sonhos; talvez haja uma ferrugem amarga no reflexo do que senti. Nossos desejos precisam ser contemplados, assim como a minha vaidade naquele instante repentino. O sinal na sua perna me dá a estranha certeza de um sentimento sem promessa de duração, algo de que me lembrarei até o dia da minha morte. Ou não.
[...] não, eu nunca irei te esquecer!... Você não sente a minha falta, eu sei. Oh, belo jovem volúvel, você nunca leu o que escrevi. Ainda assim, virei no meio da noite, da mesma forma que apareci diante dos portões do seu palácio pela primeira vez, apenas para te assombrar.
Esse é um final que ainda não posso escrever, porque tenho você como minha melhor recordação — narcisista, talvez — do romance mais breve que vivi. Seus olhos tão claros me transportam para o meio da noite. Seu corpo liso e nu me obriga a sentir o doce sabor do triunfo. Sua pele é clara como a luz morna de uma noite de verão.
Você é como eu sempre sonhei. Mas eu sempre soube que não seria para sempre. Afinal, do que são feitas as fantasias mais efêmeras? Você me deu uma noite para toda a vida. Pensei que jamais experimentaria o êxito soberbo da minha própria libido. Agora que sabemos que o que vivemos não passou de matéria ardente e passageira, diga: você já percebeu que, quando nossos corpos se encontram, nos sentimos belos?
