Na vida, você certamente irá trombar com todo tipo de gente que existe no mundo, inclusive com gente como eu: blasé. Sim, confesso que, boa parte do tempo, posso ser apático à moda Woody Allen; quer dizer, desinteressado por muita coisa que não nos cabe, que furta nossa paz, sequestra nosso brilho na existência e que nos é ofertada como regalo, diária e sistematicamente. Há um certo cansaço que não é físico, mas ético — uma fadiga de entusiasmos obrigatórios.

Não se trata de uma simples escolha ser blasé, mas, talvez, de uma síndrome resultante de estímulos psicossociais. E, como a primeira impressão é a que fica, geralmente somos tachados de “pessoas para as quais tanto faz”. Pensando cá com meus botões, isso acontece porque o portador do quadro, muitas vezes laureado por certo fetiche ao estilo Twiggy, resultado de uma combinação estética, histórica e cultural bem específica dos anos 1960, está inserido em um ambiente inadequado ao seu próprio ritmo de vida, um habitat que exige euforia onde só há lucidez.

Com seu corpo extremamente magro, cabelo curto e olhar muitas vezes distante ou neutro, a modelo quebrava o padrão sensual e exuberante das musas anteriores. Sua expressão facial frequentemente parecia impassível, quase indiferente, o que dialoga diretamente com a ideia de “blasé”: alguém que aparenta tédio, desapego ou falta de entusiasmo diante do mundo.

Tudo isso se conecta ao contexto da Swinging London. Apesar de ser um período vibrante, jovem e revolucionário, havia também uma estética de coolness; ser moderno significava não demonstrar esforço, emoção excessiva ou entusiasmo óbvio. Twiggy encarnava esse espírito: ela parecia estar sempre “acima” das coisas, como se nada a impressionasse demais. E, agora, parece que um punhado de nós resgatou esse sentimento motivado pelo desprezo ao supérfluo. 

Se antes havia o diálogo com a arte e a cultura pop da época, especialmente a influência de figuras como Andy Warhol, hoje nos deparamos com o mais puro niilismo cultural. A repetição, a superficialidade e a valorização da imagem criavam um tipo de sensibilidade em que o sujeito se tornava quase um objeto belo, icônico, mas emocionalmente distante. Hoje, reproduzimos o ridículo forjado nas tendências ditadas pelas redes sociais. O “blasé” nasce também dessa saturação de estímulos: quando tudo é novidade, nada realmente surpreende.

Além disso, o conceito de blasé tem raízes mais antigas, como no pensamento do sociólogo Georg Simmel, que descreveu o indivíduo moderno das grandes cidades como alguém anestesiado pelo excesso de experiências ─ isso te faz lembrar de algo que vivemos atualmente? Twiggy, embora jovem e ligada à moda, acabou funcionando como uma espécie de ícone visual desse estado psicológico.

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Nós, acometidos pela síndrome do blasé, não fazemos exatamente uma cara de quem não gostou, mas uma expressão de “sou maior do que isso”. E, pior, tende a ser verdade. Defeito insuportável ou senso crítico apurado? Quando algo que não nos atrai (ou que achamos simplesmente uma merda!) é sugerido com poucas possibilidades de recusa, somos tomados por uma espécie de antiempolgação — uma recusa silenciosa que, no fundo, é uma forma de autopreservação.

A chamada síndrome de blasé, quando tudo e todos se tornam aparentemente entediantes; nem os modelos a ser seguidos, que antes eram tão incríveis, já não são mais os mesmos, segue a lógica do seguinte poema de autoria desconhecida:

Da fuligem pegajosa,

Que é seiva,

Retiro o indispensável e me desenvolvo.

 

Cuspo flores, arroto frutos,

Idiossincraticamente contribuo com meu colorido

Na modernidade, no entanto, parece haver uma exigência tácita: devemos arrotar flores. Sorrisos plastificados, opiniões palatáveis, entusiasmo sob demanda. É como se a espontaneidade tivesse sido terceirizada e substituída por um manual de boas maneiras emocionais. O blasé, nesse cenário, é quase um sabotador involuntário, alguém que esqueceu de decorar o script e, por isso, revela a encenação.

Talvez por isso desenvolvamos uma intolerância quase visceral ao supérfluo, ao que não carrega poesia, ao que não pulsa arte, ao que não tem centelha alguma de verdade. Não é arrogância gratuita; é, antes, um esgotamento diante do raso. Há uma fadiga específica em fingir que o vazio tem profundidade, que o banal é extraordinário só porque alguém disse que era.

É o caso da insistência na sua ida àquele encontro que alguns amigos autoproclamam imperdível ou, na pior das hipóteses, na obrigação de conhecer alguém que eles julgam ser o guru das tendências comportamentais nas mesas de café. Eis a vida na modernidade entediante. Não tem jeito: eu sou blasé, e não por falta de opção, mas por excesso de repetição.

Talvez esse estado tenha sido forjado na plena maturação da modernidade, quando tudo passou a ser excessivamente acessível e, paradoxalmente, profundamente vazio. O excesso de estímulos, de convites, de possibilidades não ampliou o sentido; apenas o diluiu. O blasé nasce, então, como uma resposta quase orgânica ao excesso de nada travestido de tudo.

E quem, afinal, se atreve a julgar os blasés? Aqueles que melhor se adaptaram ao espetáculo? Ou os que ainda acreditam que entusiasmo pode ser fabricado em série? Há certo conforto em apontar o dedo para quem não dança conforme a música, especialmente quando a música já perdeu o ritmo há tempos.

Mas há uma questão incômoda: é possível ser blasé sem se questionar? Ou essa síndrome pertence justamente aos descontentes, aos que não aceitam o mundo como ele se apresenta? Talvez o verdadeiro blasé não seja o indiferente, mas o crítico exausto, justamente aquele que já viu demais, pensou demais, sentiu demais e agora economiza reações como quem preserva energia vital.

Nós, blasés, não enxergamos a vida apenas em escalas de cinza. Isso seria uma simplificação injusta. Há, sim, um colorido, mas ele brota com naturalidade, sem esforço, sem imposição. Não é qualquer coisa que nos encanta; mas, quando encanta, o faz de maneira genuína, quase rara. E talvez seja exatamente essa raridade que dê valor ao sentir.

Há também uma intolerância crescente à vulgaridade, à idiotice e à mediocridade, não no sentido elitista, mas no existencial. É difícil celebrar o que é raso quando se sabe que poderia ser profundo. É difícil rir do previsível quando se anseia pelo inesperado. O blasé não rejeita o mundo; ele rejeita a versão empobrecida que nos vendem dele.

E, nesse processo, abdicamos — conscientemente ou não — do prazer da superficialidade ingênua: aquela leveza descompromissada, aquele encantamento fácil, aquela alegria quase infantil diante de qualquer novidade. Perdemos isso. Em troca, ganhamos discernimento, o que, convenhamos, nem sempre é um bom negócio.

Mas, então, com o que nos encantamos? Com o que ainda somos capazes de vibrar? Talvez com o raro: uma conversa que não seja protocolar, uma arte que não seja fórmula, um gesto que não seja calculado. Encantamo-nos com aquilo que escapa ao algoritmo da previsibilidade, com o que ainda é humano demais para ser domesticado.

Resta a dúvida inevitável: é uma fase que logo passará? Ou um estado que se instala de vez, como uma lente permanente através da qual enxergamos o mundo? Talvez passe. Talvez não. Talvez o blasé seja apenas alguém em trânsito entre o desencanto e a possibilidade de um novo tipo de encantamento mais sóbrio, mais honesto.

Quando sei que não devo nada ao mundo, meus “desaforos” valem ouro. E é disso que sempre falo: ter consciência das próprias navalhas. Afinal, o oprimido sempre pode ser alguém apto a desferir o último golpe. Porque, no fim das contas, o blasé não é inofensivo; ele apenas escolhe, com precisão cirúrgica, quando vale a pena reagir.