Em uma tarde fria — daquele frio neurótico que parece mais psicológico do que meteorológico —, em pleno inverno paulistano, Will Assunção, um escritor que já desistiu de ser promissor para se tornar apenas cronicamente ansioso, encontra-se com uma de suas melhores companhias dos últimos tempos em um café aconchegante. O lugar tem vista para a cidade, mas ninguém olha. Há um jazz melancólico ao fundo, que parece ter sido composto especificamente para pessoas que já fizeram terapia, mas continuam confusas.

A conversa começa de forma abrupta, como costumam começar as crises existenciais disfarçadas de diálogo:

— Mas como pode? — diz Will, com uma voz trêmula que não decide se está indignada ou prestes a pedir desculpa por existir.

— O quê? — responde o outro, com um interesse genuíno, o que já é raro e, portanto, suspeito.

— Você não viu? — insiste Will, não porque espere uma resposta, mas porque a incredulidade precisa de plateia.

— O quê? Colocaram drogas no café pra fidelizar clientes emocionalmente instáveis? — pergunta, com a naturalidade de quem já considerou essa hipótese mais de uma vez.

— Não! — Will quase grita, ofendido por não ter sido o primeiro a pensar nisso.

Ele então faz um pequeno gesto com a mão, fecha os olhos por um segundo — como se estivesse prestes a canalizar uma verdade transcendental — e dispara:

— A atendente sabe o meu nome.

Silêncio. Um silêncio respeitoso, como se tivessem acabado de mencionar a morte ou o preço do aluguel.
— Will... — responde o outro, esperando que o nome, dito em voz alta, resolva o mistério.

— Não, quero dizer... como ela escreveu meu nome no copo se ela não me conhece? — continua, agora visivelmente perturbado, como se tivesse sido reconhecido por um fantasma.

— Atendentes de café vivem de relações efêmeras — responde, quase automaticamente. — Especialmente em lugares com jazz e iluminação que faz todo mundo parecer mais triste e, portanto, mais interessante.
Ele para. Pisca. Processa.

— Espera. Ela fez isso mesmo?

— Não só escreveu. Me chamou pelo nome.

— Uau… — diz, com um entusiasmo cauteloso, como quem acha incrível, mas teme que seja um golpe. — Isso é… meio incrível, não?

— É, mas eu não consigo entender como — responde Will. — You know?

— Está tudo bem, Will.

— Okay, but… — ele suspira as palavras, como se até o inglês estivesse cansado.




— Você não precisa ficar com essa cara.

— “Essa cara”? — repete, já ofendido por algo que ainda não compreendeu totalmente.

— Sim. Cara de quem acordou e descobriu que dormiu na mesma cama que Audrey Hepburn… ou James Dean. Talvez Marlon Brando.

— Eu estou com cara de quem poderia ter dormido com o James Dean? — pergunta, confuso, mas levemente interessado na possibilidade.

— Sim. Exatamente essa cara.

— Qualquer um ficaria com essa cara — continua o outro. — O próprio Marlon Brando ficaria com essa cara. Hemingway também, provavelmente, mas ele esconderia melhor.

— Will — retoma, tentando trazer a conversa de volta à realidade —, você já veio aqui antes, certo?
— Duas… três vezes. Não mais que isso.

— Então pronto. Ela se lembrou de você.

— Mas você mesmo disse: são relações fugazes, dissolvidas em café ruim e clarinetes existenciais… Aliás, o que será que eles estão tocando? Sidney Bechet?

— Eu acho que ela se lembrou dos seus olhos — responde, agora com uma convicção quase terapêutica. — E de como você é atraente. Deve ser isso. É praticamente incontestável.

Will pausa.

— Atraente? Você me acha atraente? Mesmo?

— Acho.

— Porque, estatisticamente, as chances de alguém como eu ser lembrado são baixíssimas — continua, já transformando a insegurança em argumento científico. — Você entende isso, não entende?

O outro o observa por um segundo. Inclina levemente a cabeça, como quem muda de assunto com precisão cirúrgica:

— Will… você gostou de fazer sexo comigo?

Will responde sem hesitar, com a honestidade de quem nunca teve certeza de nada — exceto disso:

— Muito.