Eu nunca traí. Nem por vaidade, nem por falta dela. Ora, fosse por consciência sentimental ─ ou mesmo fosse pelo caráter que me compunha: nunca fui tomado pelo ímpeto do desejo carnal de me atirar em outros braços que não fossem aqueles que me eram testemunhas do meu do meu enlace de comprometimento como enamorado. Não creio que seja uma questão de coragem ou de ausência de impulsos. Mas tudo, talvez, não passasse de uma mera conta de dois algarismos: valeria a pena lançar sobre a minha consciência o peso de um momento de libido rebelde, selvagem, sem qualquer âncora filosófica? O que diria, então, Stendhal sobre mim? Há também em mim, ainda que trêmulo, um pêndulo que tende a indicar que não; não me valeria a menor das penas a inclinação por semelhante ato.

Não, caro leitor, não me vanglorio de ostentar, no estandarte invisível e imensurável da minha consciência, o título de herói da sobriedade. Até porque sempre soube que tal proeza jamais me coube e, por ordem da natureza, jamais me caberá. Hei de admitir que a seriedade nunca fora uma forma característica marcante em mim. Sou deteriorado de nascença. Alguns, inclusive, ousariam dar-me a alcunha de libertino, obsceno e impudico. Oh!, perdoe-me pela indignidade dessa última palavra. É que ela sói acontece espontaneamente, como se algumas delas se atrevessem a saltitar para fora da minha boca.

Sigamos! Eu diria, com certa tranquilidade, que todos os que conhecem o meu riso de esguelha, por ora me denunciaram, embora já guardem em jazigo julgamentos muito piores a meu respeito. Alguns têm a nobreza e a coragem — mais nobreza que coragem — de comentá-los pela frente; outros preferem tecer teorias pelas costas, às sombras, onde imagino que seja ainda mais prazeroso. E desde sempre foi assim. Meu olhar é, por sua vez, o meu maior traidor nesse eterno quesito imberbe.

Outra conversa que pretendo ter com o nobre leitor reside no plano das intenções. Pretendo, mui amigavelmente, explicar que fui sincero desde o começo deste diálogo. Portanto, por honra e apreço, devo esclarecer alguns detalhes que me competem. Pois bem!, é verdade que nunca traí. Nem sequer uma única vez. Contudo, não me cabe, nem por um milésimo de segundo, assumir a responsabilidade pela consciência alheia; os atos de outrem. Assumo, isso sim, sob uma coroa de louros, as minhas próprias atitudes, ainda que estranhas e questionáveis.

Foi numa dessas ciladas sentimentais, regidas por espasmos amorosos, que meu coração tamborilou ao ritmo de uma ópera dramática. Não que eu tenha me tornado uma criatura patética, arraigada a essa nova paixão — mal tão combatido pelo Bardo. Não permitiria, de modo algum, que tal situação viesse deveras a reproduzir-se nos meus dias; porém, seria possível dizer que me tornara o homem mais vulnerável a serpentear entre personagens recém-saídas de uma peça do dramaturgo inglês William Shakespeare. Não resisti ao calor do corpo — daquele corpo. E nem queria. Já era tarde demais para tanto [...].

Nunca me ocorreu o tormento de sentir alguma culpa por Iaiá preferir as tardes quentes comigo a tê-las com o seu mais novo rapazote. Não guardo ressentimento quanto a isso, já que fui eu quem a conheceu primeiro. Tão certo quanto justo, os Céus haveriam de dar-me razão. Custa-me esquecer seus lábios tocados tão suavemente pelos meus, ainda que por provocação. Ficava a me perguntar como seu corpo podia ser aveludado de tal modo; de uma forma capaz de me atrair como uma mariposa atraída pela chama. Era uma verdadeira obra divina, confesso.

Mas o que mais me inquietava naqueles dias de sol a pino era perceber que ela me desejava ardentemente, a ponto de me seduzir por puro capricho. Ora, leitor, sou feito de carne, osso e desejos; tente compreender-me. Não me julgues imoral, pois, mais adiante, é possível que leves um susto ainda maior.

Confirmava, naquele instante, a minha própria condição de reles mortal e tinha plena consciência desse defeito humano ao vê-la despida sobre lençóis alvos como a prata do Paraíso. Mas deixemos Iaiá em paz e saltemos para o próximo capítulo.

Custou-me livrar-me de Iaiá; fosse pelo desejo que ela nutria por mim, fosse pela minha falta de coragem para pedir-lhe que fosse embora da minha história. Mas a vida prossegue. Iaiá havia partido; fora morar em outra cidade, desta vez longe da minha, e eu estava novamente livre para me pendurar em outros pescoços. Hei de perguntar a Deus se algum dia me livrarei desses desejos que me atormentam e me causam tamanha comichão.

Editoria de Arte da WA

O que me restara foi um banco vazio e a esperança de encontrar forças suficientes para ver o tempo passar enquanto a minha hora não chegava; não a de morte, mas a de vida. E como ela soube ser engraçada! Ao cruzarem-se os ponteiros, às dezessete horas de uma quinta-feira qualquer, apareceu-me uma alma jovem para trocar algumas poucas palavras comigo. Eu já a conhecia. Não revelarei o seu nome pelo resquício de reputação que ainda me resta. Decidi preservar-lhe a identidade.

Com o mesmo poder da escrita shakespeariana, parecia anunciar-se diante de mim o dom da previsão: saberia eu que aquela figura cândida se tornaria minha próxima Iaiá. Peço-lhe que não se irrite, caro leitor. Há de me perdoar por esta desilusão. Devia eu ser mais romanesco, mas, se cumprisse tal roteiro, deixaria esta de ser uma história inebriada de autenticidade. A verdade é que me entreguei ao novo romance como quem conhece Paris pela primeira vez. Agora, Iaiá não passava de uma vaga lembrança, uma quimera de outrora.

O deleite foi inevitável, a tal ponto que os dias se perderam em minhas contas. Quanto tempo caminhei pelo paraíso? Não fiz questão de contabilizar. Passei o início do inverno desejando que os dias se rompessem mais lentamente e não me importei com o frio que fazia por aquelas bandas. O que mais queria era saciar os meus desejos mais íntimos; e, por obra do Divino — ou do cão-tinhoso —, eles foram atendidos. Dado o tempo certo, passou-se. E nunca mais se repetiram as tardes de maio. O quão pode ser ingrata uma desventura amorosa. Eu, que poderia servir de exemplo, não me importo mais. Já estou calejado. Foi-se o tempo.

[...] Casaram-se uns, separavam-se outros, e eu continuava às moscas. Deixei de consultar o passado, recolhi as mangas e segui adiante com o tempo. Nada de remorso, não havia espaço para amarguras dentro dos meus dias pálidos e entediantes. Entretanto, continuava solteiro, sem ninguém ao meu lado. Não me culpe, tampouco culpe o destino. Sou um solteirão à moda antiga. Não acredite que, por conta disso, tenha me tornado casmurro ou menos charmoso. Pensei apenas que agora possuo mais motivos para ir a Berlim em busca de uma nova ilusão. Nunca se sabe quem será a próxima pessoa a entrar em sua vida e obrigá-lo a erguer as sobrancelhas. 

Dito isto, encerro, prezado leitor, este diálogo.

Com os meus melhores cumprimentos, agradeço pela paciência e atenção,

Alecto Grego