Você tossia ─

e eu ria baixo,

tragando devagar

como se soubesse exatamente

o que estava fazendo.


A fumaça subia

e levava alguma coisa nossa junto —

talvez o futuro,

talvez a chance de dar certo.


Eu te olhava

com desejo

e um certo tipo de crueldade doce,

como quem rouba um instante

e guarda no bolso

sabendo que não vai durar.


Nós nunca fomos feitos

para agradar ninguém.

Éramos como noites nubladas:

bonitas para alguns,

incômodas para quase todos.


E ainda assim,

éramos alguma coisa

que não sabíamos descrever.


Gosto de pensar

que o melhor de nós

foi nos perdemos 

nas nossas próprias promessas.


Porque o que não promete

não falha —

só acontece.


E aconteceu.


Você, com seus cálculos exatos,

seu jeito meio bobo de ser certo,

e eu —

errado demais para caber em qualquer lugar.


Eu te amei

do jeito mais imprudente possível.


E você foi embora

como se fosse só mais um dia.


Mas não foi.


Eu ainda lembro

do terreno baldio,

do céu aberto,

da sua voz falando de morte

como quem fala de férias.


E eu fingia odiar isso,

só para continuar ali,

ouvindo,

ficando.


As estrelas estavam sempre no mesmo lugar.

Nós não.


E talvez seja isso que mais dói.


Outro dia vi uma foto sua.

Chocolate nas mãos,

tempo nos olhos.


Parecia antigo.

Mas não era.

Era só longe.


Às vezes penso

que fui um personagem

mal escrito —

intenso demais,

ingênuo demais,

real demais para dar certo.


Como Holden Caulfield

numa versão que ninguém publicou.


E agora escrevo isso

como quem acende outro cigarro:


sem necessidade,

sem sentido,

só pela memória

do que queimava devagar.