Will Assunção é especialista em comunicação e colunista do WA
Manual prático para dançar com o abismoA modernidade está carente de Nietzsche. Superar as estruturas criadas por uma sociedade adoecida que confunde terapia com autoajuda, prazer com produtividade e reflexão com procrastinação exige coragem e esforço para questionar o próprio sentido das coisas, como a engrenagem da vida — e isso, inevitavelmente, envolve outras pessoas. Diante do niilismo que a própria existência nos impõe, requeremos de nosso próprio íntimo um esforço descomunal para lidar com tormentos avassaladores internos que dificilmente digerimos sem algum trauma — ou sem uma boa taça de vinho e uma playlist melancólica no Spotify.
Há quem seja acometido, como eu, por uma crise existencial que possibilite ver-se mergulhado em um turbilhão profundo de questionamentos sobre o real significado de viver. Enquanto uns lidam com isso comprando plantas e fazendo pilates, outros decidem encarar o abismo e, para variar, o abismo revida. Só quem teve coragem de assumir o Nietzsche que cultivou dentro de si sabe o que é conviver com as angústias aterrorizantes que o ser humano pode desenvolver — e ainda, no vigor do capitalismo, pagar boletos.
Quem se atreveu a ir adiante e se arriscar a querer as respostas para algumas perguntas que nos atormentam em algum momento da vida pode ter se tornado alguém mais distante e solitário. Este tem sido o meu diagnóstico nos últimos tempos. Um dos motes do filósofo ilustra bem este sentimento: “Às vezes enxergo tão profundamente a vida que, de repente, olho ao redor e vejo que ninguém me acompanhou e que meu único companheiro é o tempo”. Nietzsche não previa, claro, o advento das redes sociais, onde a solidão ganhou reações e o tempo virou algoritmo.
A eminente solidão que surge inesperadamente e a frustração ao se deparar com a realidade sobre a condição do ser humano, as mais complexas análises que nos vemos obrigados a tecer sobre as nossas frágeis relações interpessoais (às vezes tão fugazes), o sentido da nossa existência e todo o resto fazem parte deste quadro. A ironia é que, quanto mais buscamos sentido, mais percebemos que ele é um produto que se vende caro — e raramente vem com garantia.
Algumas pessoas geralmente tendem a lidar com a própria existência por meio de uma espécie de superfície filosófica. São os praticantes da “filosofia leve”, aquela que cabe em stories e é dita por coaches de terno slim-fit. Elas, por sua vez, encontram mais facilidade em atravessar a sua jornada pelo mundo, já que seus dramas não possuem a mesma intensidade daqueles encontrados por um “Nietzsche”, afinal, é mais fácil ser feliz quando se ignora a tragédia.
O simples fato de pensar é doloroso e requer tempo demais. É mais simples ligar o piloto automático e chamar isso de equilíbrio. Lidar com as dores da existência pode resultar em incertezas e angústias pesarosas e, como consequência, afetar o nosso comportamento e personalidade. Daí o cansaço crônico da alma moderna: tentamos resolver dilemas ontológicos com aplicativos de meditação e frases motivacionais impressas em canecas.
O niilismo, que antes era uma questão filosófica, tornou-se um estilo de vida, um filtro de Instagram para quem quer parecer profundo sem realmente se aprofundar. A ausência de sentido foi substituída pela agenda cheia, e o vazio existencial agora vem com Wi-Fi. Nietzsche, se vivo, talvez escrevesse aforismos em forma de tweets (ou X?) — e seria cancelado por relativizar a moral.
Mas há quem ainda insista em pensar. Em um mundo que recompensa a pressa, o ato de refletir é quase um protesto silencioso ─ e talvez revolucionário. Pensar é, paradoxalmente, um exercício de coragem e uma forma de resistência, um modo de não se deixar anestesiar pela avalanche de superficialidades que chamamos de vida moderna.
E talvez seja esse o preço da lucidez: perceber o ridículo do mundo sem deixar de rir dele. Nietzsche, afinal, sempre teve um senso de humor mais próximo de quem dança à beira do abismo do que de quem medita sobre ele. O riso, nesse caso, é a última forma de resistência possível. É um lembrete de que ainda estamos vivos o bastante para achar graça no desespero.
Por isso, as pessoas que assumiram suas próprias dores de estimação estão sempre em busca de maturidade — não a que se encontra em cursos on-line, mas aquela que se conquista com o tempo, com as quedas e, sobretudo, com o espanto. São mais maduras porque entenderam o que Nietzsche sabia: a vida não é para ser superada, é para ser suportada com elegância. E um pouco de sarcasmo ajuda muito.