O povoado do Bicho de Cima, a 15 quilômetros da sede de Jussiape, município da região da Chapada Diamantina, na Bahia, é um dos locais por onde se tem acesso à Serra do Santo Antônio. O Pico do Candombá, cume da serra, com mais de mil metros de altitude, abaixo do Pico do Itabira (conhecido também como Itobira) integra o mesmo conjunto de formações geológicas e chega a 1.970 metros de altitude, segundo consta no Google Maps, consultado em janeiro de 2016. Nele, os escombros guardam a mítica história de mineradores que morreram soterrados.

Apesar de constar no Google Earth que o Itabira fica localizado no território de Rio de Contas, município vizinho a Jussiape, é possível encontrar algumas divergências nos mapas da gigante da tecnologia, o que dificulta a precisão exata de sua localização. É bem provável que o pico esteja na divisa entre os dois municípios, explica a geógrafa e especialista em ecoturismo Soraia Assunção.

Serra do Santo Antônio ─ Foto: Will Assunção/WA

Uma expedição rumo à serra contou com Osni dos Santos, morador local que, ao reproduzir relatos orais que atravessam o tempo, afirmou que, no século 18, período em que a exploração de ouro atingiu o seu ápice em Jussiape, mineradores teriam sucumbido junto à mina em um desastre trágico que levaria também à morte de negros escravizados cuja mão de obra era empregada na empreitada pelo minério após façanhas revestidas de ganância.

Diz a lenda que Pedro da Silva, um dos responsáveis pela exploração de ouro no local ─ e de quem os pesquisadores pouco se têm notícia, já que há raros ou quase nenhum registro oficial sobre sua figura ─, ao ver tanto mineral precioso ser extraído da beta, ficou tão impressionado que teria dito “se for pecado, basta...”. Uma declaração que expunha a ganância do homem o suficiente para despertar a ira dos Céus e a estrutura ceder, matando todos os que estavam nas escavações, como forma de castigo divino pela ganância empenhada nas expedições que garantiram incontáveis arrobas de ouro a Portugal.

Osni, o local responsável por guiar a expedição, disse que essa história está presente no imaginário da sua infância e remonta os tempos do seu bisavô. “Desde quando eu era criança, a gente vinha aqui. Mas hoje está tudo abandonado”, completou.

Com a penetração dos bandeirantes na Chapada Diamantina, a busca por minérios preciosos impulsionou a chegada de exploradores, que haviam deixado para trás o sonho das Minas Gerais após os primeiros sinais da decadência da exploração do ouro, nas décadas iniciais da segunda metade do século 18. Logo as Lavras Diamantinas, na região centro do estado, ganhariam novos rumos: serras e ribeirões foram rasgados para formar novos garimpos. Por ocasião do centro de riquezas estar localizado às margens do Contas, entre vales e serras, uma povoação logo se formaria, dando origem a Jussiape.

Um fato averiguado é o de que no local há vestígios de uma antiga beta. Outro caso que merece destaque é o da constatação da existência de minérios no local. Não por acaso que, em 2010, parte da área foi comprada por uma empresa de mineração interessada em explorar o potencial da serra e cogitar a viabilidade econômica para atividades mineradoras para as próximas décadas.

Considera-se por constatação de registros históricos, visto ainda que careça de mais fontes substanciais, que quantias do ouro encontrado nas proximidades do Pico do Candombá eram transportadas em lombos de animais pela Estrada Real até a casa de fundição mais próxima, em Rio de Contas, e pagas à Coroa Portuguesa. Inclusive, há registros de passagens, como a do pagamento do Quinto, imposto que o rei de Portugal recebia pela extração do ouro.

Supõem-se que o garimpo na Serra do Santo Antônio pagou a Portugal de Quinto 450 arrobas de ouro. Se uma arroba equivale a 15 kg, chega-se à conclusão de que foi entregue à Coroa Portuguesa 6.750 kg do mineral precioso.

Serra do Santo Antônio ─ Foto: Will Assunção/WA

O percurso na serra é considerado difícil, pois exige longas caminhadas e faz necessário a aberturas de trilhas devido à vegetação alta além de pequenas táticas de sobrevivência. Em todo caso, há ainda a preocupação de educação e conscientização ambiental por se tratar de uma área protegida.

A Serra do Santo Antônio fica na Área de Proteção Ambiental do Barbado (APA do Barbado), no território que compreende Jussiape e Rio de Contas. A unidade de conservação de uso sustentável foi tombada em 1993. A região abriga várias nascentes que abastecem as principais bacias hidrográficas do estado, entre elas, Paraguaçu, Contas e São Francisco. O local dispõe de uma rica biodiversidade e guarda a memória do Ciclo do Ouro e do Diamante na Chapada Diamantina.

Serra do Santo Antônio ─ Foto: Will Assunção/WA

A trilha, que se estende por aproximadamente 10 km, foi percorrida pelo grupo, enquanto todos ainda podiam contar com a luz do sol. À noite, devido à altitude elevada, a temperatura despenca. É provável que, na madrugada, os termômetros cheguem a registrar 14º C no verão. Dois integrantes da expedição sentiram falta de ar e outros reclamaram de formigamento e tontura. Quem pretende conhecer a serra algum dia, deve estar precavido. Mas, lá do alto, a vista compensa. Do Pico do Candombá, é possível ver partes da cidade de Jussiape, além de trechos da BA-148, que corta a serra em direção a Rio de Contas.