Will Assunção é especialista em comunicação e escreve sobre cultura e sociedade
E se, por acaso do destino, você descobrisse uma pasta com todos os seus e-mails enviados nos últimos oito anos? Mensagens para amigos próximos, fotografias eternizadas, conversas esquecidas no MSN e textos que revelam um jovem recém-ingressado na universidade, repleto de sonhos e medos.
Foi exatamente o que aconteceu comigo, ao fazer uma faxina em um dos cantos mais remotos da minha existência: meu correio eletrônico. Ainda não sei o motivo de o Hotmail ter armazenado todos esses arquivos em uma única pasta, mas foi o que encontrei ao me deparar com centenas e centenas de itens reunidos em um só lugar.
Uma viagem ao passado
O achado me proporcionou uma verdadeira viagem no tempo. Acompanhei a própria evolução da minha vida ao longo de quase uma década — o período em que deixei de ser adolescente e me tornei adulto.
Por diversas vezes, cheguei a me achar ridículo ao reler o modo como escrevia para amigos e colegas da faculdade. Mas, ao mesmo tempo, senti uma saudade imensa de quando a liberdade de andar na rua era talvez o bem mais precioso com que um jovem podia sonhar.
De tudo o que reli, ouvi e vi, alguns arquivos pareciam inacreditáveis. Era imaturidade demais para alguém que hoje abomina o que foi encontrado ali — como, por exemplo, uma infinidade de “textículos” melodramáticos (esse diminutivo não seria muito infame para a palavra “texto”?). Ainda assim, percebi que algumas coisas nunca mudam e descobri que certas verdades são incontestáveis.
Achados e perdidos digitais
Listei, em uma espécie de “achados e perdidos”, tudo o que mais me chamou a atenção nesse tesouro virtual:
- Uma listinha repleta de comentários particulares sobre quem eu já havia beijado — o mais curioso era a riqueza de detalhes e impressões sobre as pessoas e as situações;
- Dezenas de fotografias que marcaram minha vida: amigos, viagens, férias de verão, acampamentos, paqueras, amores e até fotografias de pés (quem pode comigo?);
- Uma coleção de declarações sinceras e intensas — eu sempre fui alguém que dizia o que sentia, sem papas na língua;
- Uma playlist, criada em 2007, porque eu acreditava que as músicas poderiam desaparecer da internet. Era um verdadeiro banco de dados musical com canções de Coldplay, Travis, Radiohead e The Clientele;
- Cartas. Acredite! Eu sempre usei o e-mail para manter o hábito de escrever cartas a pessoas com quem tinha intimidade suficiente para confidenciar segredos;
- Trabalhos esdrúxulos da faculdade, que qualquer aluno do 7º ano faria melhor — e sem esforço;
- Conversas salvas do MSN. Em uma delas, eu contava a um amigo meu destino nas próximas férias de verão;
- Uma foto de Nick Valensi, guitarrista do The Strokes, que levei ao cabeleireiro para copiar o corte de cabelo;
- Uma lista com 30 coisas para fazer antes de morrer, com itens como “fazer sexo com os melhores amigos”, “fazer uma tatuagem”, “beijar um transeunte em Nova York” e “subir no palco alcoolizado para dançar uma música dos Stones”;
- Aforismos imortalizados de Gandalf, o mago de Tolkien.
Fragmentos de mim
Meus e-mails revelaram uma parte importante da minha história. Entre declarações de amor, casos de superação e amizades profundas, ali estava um retrato do tempo — fragmentos de vida resumidos em bytes.
